Ainda é preciso quebrar barreiras para encarar o debate. Mas mesmo ainda que pareça sinônimo de blasfêmia, a prática do aborto é uma realidade no Brasil. E, ainda que se tente negar, trata-se de uma questão de saúde pública. Conforme o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, uma mulher morre a cada dois dias e meio no Brasil após realizar um aborto. E a Pesquisa Nacional de Aborto, realizada em 2010, pela Universidade de Brasília (UnB) revelou que uma em cada cinco brasileiras de 18 a 39 anos já fizeram aborto.
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Para chegar a esse resultado, os pesquisadores usaram uma técnica de urna, em que as participantes depositavam anonimamente as respostas. Caso fossem obrigadas a se identificar, diz Débora Diniz médica que conduziu a pesquisa, junto com sociólogo Marcelo Medeiros , os números seriam diferentes.
Se essas mesmas mulheres fossem perguntadas sobre sua opinião sobre o aborto, iriam dizer que são contra, porque há uma expectativa de que boa mulher e boa mãe não podem negar a maternidade. Não é só por uma questão moral, é também pelo medo de ir para a cadeia, porque aborto no Brasil é crime observa Débora, que pela pesquisa recebeu, nos Estados Unidos, o mais importante prêmio das Américas em saúde pública, concedido pela Organização Pan-americana de Saúde, em 2012.
Segundo a psicóloga Lúcia Martins, também é um equívoco comum na sociedade de julgar que a escolha pela interrupção da gravidez é uma saída fácil tomada por mulheres indiferentes e promíscuas, dispostas a transgredir os códigos legais e morais por puro egoísmo:
Existem razões inconscientes e conscientes que levam a mulher a interromper a gravidez, como o fato de não tê-la planejado ou simplesmente pela decisão de não ser mãe. Mas como o contexto social construiu a ideia de que as mulheres nasceram para gerar vida, a decisão tomada de interromper a gravidez leva muitas mulheres a apresentar sintomas de depressão, ansiedade, insônia e sentimento de culpa pela escolha realizada.
A afirmação da psicóloga encontra eco em falas das mulheres que contaram suas experiências com aborto para esta reportagem. Uma delas, a comerciária Fátima*, 36 anos, que diz ter sentido uma "dor moral" após o procedimento.
Me senti vazia, ruim. Pedi perdão a Deus, para esse filho que tinha o direito de vir e que não teve. Até perante o filho que eu tive fiquei mal, porque ele quer tanto um irmão...
* Os nomes foram alterados
A pedido da revista "MIX", quatro mulheres da região relataram os motivos que as fizeram decidir interromper suas gestações:
Fátima
36 anos, comerciária, separada, um filho
"Nunca julguei mulheres que praticaram aborto. Algumas amigas fizeram, e sempre fui compreensiva com suas situações. Mas eu sempre pensava: 'isso nunca vai acontecer comigo'. Desde o início da minha vida sexual, fui muito cuidadosa. Sempre tomei pílula. Inclusive, quando estava casada. Nosso filho veio porque planejamos muito.
Quando, anos depois, nos separamos, e eu voltei a namorar, redobrei os cuidados. Passei do anticoncepcional oral para o injetável, para não correr o risco de esquecer.
Nunca esperava engravidar, mas aconteceu, no ano passado. Logo que minha menstruação atrasou, liguei para a médica, expus a situação. Ela pediu exames e c"